Teorias raciais que provocam discriminação e segregação

“…O termo raça tem uma variedade de definições geralmente utilizadas para descrever um grupo de pessoas que compartilham certas características morfológicas. A maioria dos autores tem conhecimento de que raça é um termo não científico que somente pode ter significado biológico quando o ser se apresenta homogêneo, estritamente puro; como em algumas espécies de animais domésticos. Essas condições, no entanto, nunca são encontradas em seres humanos. O genoma humano é composto de 25 mil genes. As diferenças mais aparentes (cor da pele, textura dos cabelos, formato do nariz) são determinadas por um grupo insignificante de genes. As diferenças entre um negro africano e um branco nórdico compreendem apenas 0,005% do genoma humano. Há um amplo consenso entre antropólogos e geneticistas humanos de que, do ponto de vista biológico, raças humanas não existem. Historicamente, a palavra etnia significa “gentio”, proveniente do adjetivo grego ethnikos. O adjetivo se deriva do substantivo ethnos, que significa gente ou nação estrangeira. É um conceito polivalente, que constrói a identidade de um indivíduo resumida em: parentesco, religião, língua, território compartilhado e nacionalidade, além da aparência física…” Artigo: Raça versus etnia: diferenciar para melhor aplicar 

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Para falar da ideia de moderna de raça, cuja concepção biológica já foi refutada pela Ciência, mas a concepção social é vigente e usada para classificar pessoas, é necessário traçar uma linha do tempo, na qual ideias relatadas por diversos autores se complementam e desenham o cenário em que se deu o conceito moderno de raça.

Antes, é importante entender que a concepção de raça humana é antiga, podemos entender até uma possível origem bíblica, visto que, os descendentes de Noé são tidos como homens de Deus e os que vieram de seus irmãos seriam homens renegados por Deus.

Trazendo para a Ciência, racionalizando o conceito, fala-se em raça nas idades Antiga e Média, com o viés de linhagem ou herdeiros de sangue. Com as grandes navegações europeias (Idade Moderna), o conceito raça se modifica por conta do encontro dos europeus com os outros tipos de culturas (Indígena e Africana), trazendo à tona a necessidade de entendimento racional para as civilizações recém “descobertas”.

Juntamente com as grandes navegações, surge a Ciência Exata, e também, a necessidade de estudar a Sociedade. Como tudo se concentra na Europa, a Ciência Moderna é europeia, ou seja, o “povo de Noé” era branco, civilizado e intelectual. Tinha sob controle a economia vigente e determinava hábitos e costumes, que seguiam os preceitos cristãos.

Com essa breve introdução de como o conceito raça caminhou pela linha do tempo da História da Humanidade, podemos colocar alguns autores para dialogar com suas ideias e responder a questão sobre conceito moderno de raça e as teorias raciais que contribuíram para provocar discriminação e segregação.

O primeiro autor que quero citar é **Amilcar Pereira (2014) que traz três conceitos interessantes para iniciar o diálogo sobre raça, são eles: Racismo Intrínseco (que vem do sangue, linhagem familiar), o Racismo Extrínseco (ligado a cor da pele e características fenotípicas como: cabelo e o físico) e o Racialismo (ligado às práticas culturais, independentemente da ligação sanguínea ou fenótipo).

Com a identificação dos tipos de racismos, podemos voltar ai século XIX, ainda beirando o final do século XVIII, onde a autora ***Lilian Scwarcz (1993 – 2010) nos fala de como se deu o entendimento moderno de raça, que se uniu ao entendimento cristão, visto que, ao encontrar os povos indígenas americanos e os negros africanos, os europeus sentiram a necessidade de saber, primeiramente, se eram humanos e logo depois se podiam ter alma. A autora ressalta algo importante sobre a escravidão, ela relata que a Igreja e o Estado autorizavam a escravidão dos povos que não se convertiam ao cristianismo, alegando que esses permaneciam em seu estado de natureza (conceito de ****Hobbes), ou seja, selvagens, sem uma aparente humanidade. Na África os mais ricos escravizam os mais pobres, na América a escravidão se deu por conta da necessidade de exploração. O mercado de escravos negros africanos fortaleceu ao passo que a escravidão indígena se enfraquecia.

Chegam os negros ao Brasil, começa a nascer um país misto e com o despertar da Ciência (século XIX), as teorias antropológicas e sociológicas ganham forças se unindo ao dogmatismo religioso. Enquanto Rousseau dizia que os “selvagens do bem” eram apenas indivíduos com culturas diferentes, mas iguais enquanto humanos, Darwin trazia a Evolução das Espécies, afirmando a seleção natural que os animais fazem para preservar a espécie, destruindo o mais fraco e perpetuando a linhagem mais forte. Paralelo a isso, surgem estudos para identificar diferenças entre humanos com o intuito de saber qual era a mais forte, e chega-se a classificação: brancos, amarelos, indígenas e negros, ou seja, mais forte era o branco e o mais fraco era o negro.

Diante desses fatos: linhagem cristã, evolução das espécies e classificação humana, nasce o racismo, que ganha força após a libertação dos escravos negros, que aqui no Brasil, a população era imensa retratando o reflexo social que nascia nesse país. Estudiosos da época chegaram a afirmar que o Brasil não era promissor por ser um país de mestiço.

*Petrônio Domingues (2004) traz para o debate exatamente essa época do Brasil, onde se via o descaso social e o “abandono” europeu como desafios a serem superados. A princípio pensou-se em embranquecer a população, estimulando a vinda dos imigrantes. Essa alternativa caiu por terra, visto que, a mistura não tornava branca, mas miscigenada.

A partir desde momento, começa a surgir uma separação racial nos espações sociais. O recorte feito por Petrônio refere-se ao estado de São Paulo, já no século XX, no qual fica nítido o preconceito (mesmo com uma constituição que dizia que os direitos eram para todos) demonstrado em relatos de características prévias para concursos públicos, à recusa de autoridades por ter que obedecer a negros em patentes mais altas que os brancos, ao tratamento que a Justiça direcionava aos negros, à exclusão quase que total no ambiente escolar que se dava pela recusa imediata das escolas, da criação de guetos, bairros separatistas espalhados pelas cidades do interior do estado, onde ficavam claras as delimitações de convivência entre brancos e negros.

Quando se tem o conhecimento dos fatos abordados, pode-se ter formulado o pensamento de como surgiu o racismo e perdurar até hoje. Mesmo a Ciência já reconhecendo que não existe raça biologicamente determinada, somos todos humanos, numa Sociedade conservadora, tradicional, patriarcal e eurocêntrica (Brasil), fingir que não existe racismo, ser o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil – PDF), é a forma escolhida de lidar com o racismo, reforçando a ideia de democracia racial, justificando a ideia de raça nos tempos modernos, deixando de lado o enfrentamento da causa para combater as mortes que continuam com números expressivos como no tempo da escravidão.

Por Cinthia Almeida


Referências Bibliográficas

DOMINGUES, Petrônio. Racismo à paulista: segregacionisa e costumeiro (cap. 03); A luta dos negros pela sobrevivência (cap. 04). In: Uma história não contada: negro, racismo, e branqueamento em São Paulo no pós-abolição. São Paulo: Senac, 2004. p. 133-202; p. 203-251. https://drive.google.com/open?id=0B-GW6j7Jyjp9RzRtOG8tMWFTWEE

**PEREIRA, Amilcar Araujo . Relações étnico-raciais na história e no Brasil. In: PEREIRA, Amilcar Araujo. (Org.). Educação das relações étnico-raciais no Brasil: trabalhando com histórias e culturas africanas e afro-brasileiras nas salas de aula. 1ed.Brasília: Fundação Vale/UNESCO, 2014, v. 1, p. 61-74. https://drive.google.com/open?id=0B-GW6j7Jyjp9RzRtOG8tMWFTWEE

***SCHWARCZ, Lilia. Entre “homens da sciencia” (cap. 01); Uma história de “diferenças e desigualdades”: as doutrinas raciais do século XIX (cap. 02). In: O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. SP: Cia das Letras, 1993. p.23-42; p. 43-66. https://drive.google.com/open?id=0B-GW6j7Jyjp9aGl2YzRvWjJLU1k

***SCHWARCZ, Lilia. Racismo no Brasil. São Paulo: Publifolha, 2010. https://drive.google.com/open?id=0B-GW6j7Jyjp9UTBxT0lrY2tBbVE

****WEFFORT, Francisco C; Os Clássicos da Política, vol. 1, Ed. Atica, SP, 2004. P.51-78 https://drive.google.com/open?id=0B-GW6j7Jyjp9ZC15Q3BuR1FHLUk

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Roda de Capoeira e Ofício dos Mestres de Capoeira

roda de capoeira

RODA DE CAPOEIRA

Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

Quando os negros foram trazidos para o Brasil em condição de escravos, eles entenderam que não retornariam mais a sua terra, a mãe África ficou sem milhões de filhos. A violência usada contra os negros e suas culturas, porque foram várias tribos africanas que foram dizimadas na África e tiveram que se reinventar, foi tamanha que deixou marcas até hoje em nosso povo.

“A Roda de Capoeira – inscrita no Livro de Registro das Formas de Expressão, em 2008 – é um elemento estruturante de uma manifestação cultural, espaço e tempo, onde se expressam simultaneamente o canto, o toque dos instrumentos, a dança, os golpes, o jogo, a brincadeira, os símbolos e rituais de herança africana – notadamente banto – recriados no Brasil. Profundamente ritualizada, a roda de capoeira congrega cantigas e movimentos que expressam uma visão de mundo, uma hierarquia e um código de ética que são compartilhados pelo grupo. Na roda de capoeira se batizam os iniciantes, se formam e se consagram os grandes mestres, se transmitem e se reiteram práticas e valores afro-brasileiros…” Site IPHAN

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Ofício dos Mestres de Capoeira

Somos feitos de sangue negro africano, assim como do indígena e do europeu, porém, mesmo sabendo de nossas origens, obrigamos nossos irmãos a esconderem suas culturas, a transformarem suas crenças e a se comportarem como os colonizadores. Essa marca deve ser retirada de nós, brasileiros, por nós mesmo, e podemos começar retratando toda a maldade que fizeram como nossos indígenas e negros. Transformar a Roda de capoeira e o Ofício de Mestre de Capoeira é só 1 grão diante de toda uma cultura que devemos resgatar e respeitar. Vamos construir um capítulo novo?

“O Ofício dos Mestres de Capoeira, inscrito no Livro de Registro dos Saberes, em 2008. é exercido por aqueles detentores dos conhecimentos tradicionais dessa manifestação e responsáveis pela transmissão de suas práticas, rituais e herança cultural. O saber da capoeira é transmitido de modo oral e gestual, de forma participativa e interativa, nas rodas, nas ruas e nas academias, assim como nas relações de sociabilidade e familiaridade construídas entre mestres e aprendizes. A capoeira é largamente difundida no Brasil e no mundo, a capoeira depende da manutenção da cadeia de transmissão desses mestres para sua continuidade como manifestação cultural…” Site IPHAN



Vídeo – Roda de capoeira – Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

Vídeo – Inventário para Registro e Salvaguarda da Capoeira

Por Cinthia Almeida

O Diário de um ser humano, por Carolina Maria de Jesus

livros_carolina_maria_jesusOs intelectuais leem o mundo pelo viés acadêmico, literário ou científico. Os ignorantes leem o mundo pelo viés da vida vivenciada como um todo, podem não ter o Conhecimento das letras, mas possuem a Sabedoria do sentir, ouvir, ver, falar e pensar.

Carolina Maria de Jesus foi um ser humano com clareza de vida e uma mulher de muita força e persistência. Se tornou escritora sem saber, registrou sua história sem o menor propósito de compartilhar, tentou ver o mundo com a alma e nos deixou um legado com valor inestimável. #LiçãoDeVida


LIVROS DE CAROLINA MARIA DE JESUS


carolina-maria-de-jesus“…Relatos como este foram descobertos no final da década de 1950 nos diários da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Moradora da favela do Canindé, zona norte de São Paulo, ela trabalhava como catadora e registrava o cotidiano da comunidade em cadernos que encontrava no lixo. Ela é considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil.

Nascida em Sacramento (MG), Carolina mudou-se para a capital paulista em 1947, momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade. Apesar do pouco estudo, tendo cursado apenas as séries iniciais do primário, ela reunia em casa mais de 20 cadernos com testemunhos sobre o cotidiano da favela, um dos quais deu origem ao livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicado em 1960. Após o lançamento, seguiram-se três edições, com um total de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países…” Biografia de Carolina Maria de Jesus – Site UOL Educação

Vídeo – Carolina Maria de Jesus: filha fala sobre vida e obra da escritora brasileira

Por Cinthia Almeida